SER MÚSICO É PADECER NO PALCOSabe esses dias em que tudo dá errado ? Bom, não tudo, mas as coisas erradas acabam ofuscando as boas... todo mundo deve saber bem.
Eu toco em uma banda chamada Creedence Clearwater Recover. Fomos chamados para uma performance em um bar daqui de Maringá. Foi meio que de última hora, mas consegui avisar um monte de gente e ainda tivemos tempo pra ensaiar.
Ensaio feito, últimos acertos, volta pra casa, preparação e descanso e finalmente à noite eu chego no bar... um pouco adiantado, meus companheiros ainda nem haviam chegado, mas não demoraram muito.
Armamos o palco, testamos o som... depois foi só esperar o bar abrir e o povo começar a chegar. Mas aí que começou meu martírio.
Começamos a tocar e, na primeira música o baixista encosta em mim (o palco é pequeno) e tomo um puta choque! maldito aterramento defeituoso! Bem na hora em que eu fazia segunda voz, que por sorte era meio gritada e pude disfarçar meu próprio grito de susto.
E também nesta primeira música eu já arrebento uma corda da guitarra. Corda nova, recém-colocada e olha que eu tenho "mão leve" pra tocar. Não tinha como continuar tocando, a guitarra desafinou toda e não tinha jeito: eu passei correndo pelo meio da multidão até O OUTRO LADO DO PALCO pra pegar minha caixinha de cordas e (surpresa!) eu tinha todas as cordas sobrando, MENOS a maldita corda arrebentada. Recorri ao material do outro guitarrista e ele tinha a corda. Bom, ele me devia uma mesmo do show anterior e peguei sem dó.
Quem não tem
roadie sabe o inferno que é trocar corda de guitarra no apuro. Consegui colocá-la, passei pela multidão e voltei ao meu lugar DO OUTRO LADO DO PALCO, peguei o afinador e afinei a Gigi, minha guitarra.
Nessa altura meu humor já estava arruinado, mas voltei a tempo de tocar a terceira música e aí o baixista encosta em mim de novo. Outro choque f.d.p. e eu xinguei Itaipu.
Algumas pessoas flagraram e virei motivo de piada. Eu falei pro baixista não encostar mais em mim ou eu ia sentar a porrada... só que não tinha como, o palco era realmente pequeno.
Resumindo um pouco, foram ao todo 7 ou 8 choques a noite toda. Eu via estrelas e gritava em cada um deles. Mas minha compensação, se é que eu posso chamar assim, é que ele também levava o mesmo choque quando encostava o contrabaixo em mim e gritávamos em coro. Acho até que se eu ainda usasse cabelo black power ele estaria espetado.
Eu estava irado, chateado, magoado, puto da cara. Tocava mecanicamente e me acalmei com esforço sobre-humano. No início da última música, logo após o último choque me arrebenta a última corda da guitarra.
O jeito foi fingir que tocava e nessa hora acredito que até quem estava no banheiro sabia da performance chocante deste que vos escreve. Só que, quando a música chegou aos seus últimos acordes, acontece a tradicional barulheira: todo mundo toca o último acorde, o baterista fica repicando feito uma metralhadora e dá a batida final. Só que, nessa baquetada final, uma das baquetas escapa da mão dele (ele faz isso de propósito, eu sei) e em vez dela ir pra cima, vem direto na cabeça de ... preciso dizer quem ?
E a platéia ainda tem a pachôrra de pedir "MAIS UM! MAIS UM! MAIS UM!" e "CONTINUAAA!" ou então "TOCA MAAAIS!!". Era eles contra eu: eles querendo mais e eu querendo sai dali o mais rápido possível. Ganhei a batalha, sumi do palco.
Aliás, relembrando o espírito deste blog, durante a noite toda EU NÃO QUERIA ESTAR ALI.
O cachê da noite foi suado e eu fiquei com mais esta história pra contar, mas me vinguei no show seguinte: tudo o que ocorreu comigo aconteceu com o outro guitarrista, menos os choques (esse mundo é mesmo muito injusto). Da próxima vez vou é tocar com roupa de borracha isolante, daquelas de mergulhador ;)